domingo, 19 de julho de 2009

O caçador de borboletas


Esta é a primeira crônica de "Livro Aberto", de Fernando Sabino. Ganhei da minha mãe, no Natal do ano passado, mas só consegui começá-lo esta semana, já que a lista de livros que o precedia era um pouco extensa.
O livro é composto por diversas crônicas, cartas, discursos de agradecimento, ensaios sobre literatura e relatos do autor, divididos ao longo dos anos de sua vida.
Inicia-se com o agradecimento do autor ao receber o prêmio Machado de Assis, pela Academia Brasileira de Letras. Esse tipo de coisa nunca me chamou a atenção, sempre pulo essas leituras e prossigo atrás dos contos, mas no caso do Sabino... Até o que para mim seria totalmente banal pode se tornar uma leitura interessante.

"O caçador de borboletas" foi escrito em 1939, quando o autor tinha apenas 15 anos! Ao mesmo tempo que acho o máximo, bate uma certa revolta... O que eu fiz nos meus 15 anos??? Certamente não foi escrever uma crônica tão boa quanto a do Sabino.
Recomendo a crônica e o livro, assim como qualquer outro do Sabino.
Aí vai um fragmento, porque não dá mesmo pra me conter depois de elogiar.

"(...) - Pois então me diga, seu pardal de meia-tigela: o que você queria que eu fizesse?
- Que me deixasse voltar para o seu ombro - disse ele timidamente.
- E daí? Pensa então que a vida é só comer alpiste, não é? Pois está muito enganado. Me diga uma coisa: você com certeza já andou se engraçando aí com alguma... alguma...
- ...pardoca - ensinou ele, piscando os olhos, malicioso.
- Pois bem, você tem lá a sua pardoca, que viver com ela, fazer para vocês dois um ninho no galho de uma árvore qualquer. Constituir família, tornar-se um pardal de bem. E lá um belo dia percebe que a pardoca nem liga para você, que não o ama como dantes...
- Quem é esse Dantes?
- Ora, vá sambar no brejo! Estou falando sério. O que você fazia? O que é que você fazia se desconfiasse que ela já estava de olho noutro e querendo apenas se divertir à sua custa? Então não chorava? Não arranjava um meio de se vingar?
- Não. Arranjava outra pardoca.
E veio caminhando pelo meu braço, até se achar no ombro outra vez.
- Para o diabo você e suas pardocas, seu bígamo sem-vergonha. Não vê que isso não resolve? É ela que quero, e mais ninguém. Qual, passarinho, esse negócio de viver não é mais comigo. Acabo dando um tiro na cabeça.
- Na cabeça dela?
- Na minha, seu bobalhão. Caçador de borboletas... E você? Passarinho sabe amar? Qual, você não pode entender. Nem você nem ela me entendem. São diferentes de mim. Você é um passarinho e ela, leviana como uma borboleta. Não sentirão jamais esse tédio, esse fastio de vida como já sinto.
- Que Jacinto?
Não suportei mais. Levei a mão ao ombro para atirá-lo longe, mas ele levantou vôo. Deu a volta no quarto e foi pousar na minha janela, asinhas abertas, pronto para ir embora.(...)"
O caçador de borboletas - Fernando Sabino

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