quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O segredo



Lá estava ela, saindo de casa para mais um dia de trabalho. Dia chuvoso, como mais gostava. Embrulhou-se no casaco grosso e flanelado, já comido pelo tempo. Envolveu o cachecol no pescoço fino e miúdo, e calçou as botas marfim.
Partiu com a habitual disposição, sorriso no rosto, rugas que já começavam a aparecer, e aquelas olheiras. Já não sabia desde que época as cultivava, mas o fato era que não se reconheceria mais sem elas. Olheiras amigas das noites solitárias, sempre presentes. Às vezes pensava se já não teria nascido com elas.
- Imagine só, um bebê de olheiras - ria.
Pegou o guarda-chuva só por precaução, já que não gostava de usá-lo. Enfiou-o na sacola e lá ficou, afundado entre tantas outras coisas, aquele imprestável. Saiu e trancou a porta.
Ajeitou-se dentro do casaco, e soltou os cabelos negros de índia, que tanto contrastavam com a pele branca. Pôs-se a caminhar pelas ruas daquele vilarejo, onde se enfiara há tantos anos. Sentia as botas afundarem na lama daquela rua de terra batida. Não, elas já não eram cor de marfim.
Respirava fundo, como se pudesse aspirar o mundo a sua volta, e como gostaria de fazê-lo, como gostaria de tomar um pouco de tudo para si, mas sabia que era errado, já que nunca tivera nada. Sentia a brisa fresca e os cabelos esvoaçando. Como tudo era macio! Já enxergava de longe o colégio, caminhava sem pressa, tentando aproveitar os instantes de cada segundo.
Chegava ao portão em meio a correria das crianças, que já acordavam brincando, que brincavam até mesmo nos sonhos. Abriu a porta da sala, no final do corredor. Era escura e mofada, e gostava disso. Logo as crianças se punham em seus lugares, em desordem e animação. Mais um dia se iniciava, mais um dia de sua existência contínua, monótona e conformada.
Saia do trabalho às 6 da tarde, junto com o sino da igreja, quando a noite já começava a chegar. Quando era criança, acreditava que eram as badaladas do sino da igreja que traziam a noite, assim como a sineta da escola chamava as crianças. Ao soar da última badalada a noita caía, vagarosa em suas luzes e sombras, tomando conta do dia.
Fechava a porta da sala mofada, com os livros na mão, e mais um desenho para si. O que seria? Uma casa, o sol, algumas nuvens? Sim, era mesmo. Ria-se de como as crianças são parecidas, pelo simples fato de serem crianças.
Começou a chover quando entrou na rua onde morava. Não abriria o guarda-chuva, faltavam apenas alguns passos, quase não se molharia. Entrou em casa sorridente, como quem faz uma travessura, enxugou os cabelos compridos na toalha do banheiro e fechou a casa toda. Todas as janelas, cortinas, cada fresta. A casa escurecia aos poucos.
- Onde está? Onde? - sempre esquecia onde pusera o pó do café.
- Cafeteira... filtro... pó... aguá - apertou o botão e subiu correndo as escadas.
Chegara finalmente a hora, iria buscar o que lhe dava mais alegria, não poderia ficar sem isso, nem um dia sequer, ainda mais agora, quando tudo estava perfeito, as almofadas na sala, o café na cafeteira.
Desceu carregando a caixa azul, desgastada, mas ainda azul. Colocou na mesinha da sala. Ajeitou as almofadas no sofá mais uma vez. Serviu-se do café, quente e doce e se acomodara. Será que alguém sabia de seu segredo? Tinha medo que lhe tirassem de si, lhe fazia tão feliz... A única coisa que tomara para si, durante a vida inteira. A única que pertencia só a ela, como uma propriedade, como um mimo apenas seu.
Abriu a caixa, pensativa. A luz do abajour iluminava o bem mais precioso. Retirou da caixa e colocou nos pés, e era como se tudo agora valesse a pena, tanto quanto vale um conto, efêmero e mágico. Suspirava aliviada: pantufas vermelhas. Vermelhas, e só suas.

Leila Claudia Braga


Um conto meio antigo, de uns dois anos atrás, se não me engano, mas tá valendo. =)

4 comentários:

Pablo Feliciano da Silva disse...

pantufas... tá, né?
ela não mora no Brasil, né?

Pablo Feliciano da Silva disse...

ah... mto bom o texto!

Anônimo disse...

Sensacional!!! A curiosidade foi grande mas o desfexo foi de igual tamanho!! Gostei mto Rera-san!!

Rej Rivers disse...

ahhh Pablo, qual o preconceito com pantufa??? eu amooooooo pantufas ahehehehe

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