terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tempo Suspenso


E então... ela o havia beijado. E não conseguia parar de pensar nisso. Sim, ela o havia beijado de verdade, depois de tanto imaginar este momento, finalmente havia acontecido, e o tempo estava suspenso desde então. Ali permanecia, há horas, parada do mesmo jeito, olhar vago, perdidos em suas lembranças. Apreciava cada segundo da sua tarde nostálgica e nova, onde tudo a inspirava.
Não, não fora nenhum sonho. Acontecera mesmo, embora ela própria ainda não acreditasse. Pensava que ninguém acreditaria também. Como aquela menina, de olhar tímido e cansado, tão pequena e inexpressiva poderia tê-lo beijado? Seria o que todos indagariam ao saberem. Ele nem era tão bonito assim... Mas como com ela, logo com ela isso acontecera?
O olhar vago permanecia, assim como a posição dos pés nos sapatinhos boneca. Já não podia senti-los direito. Seria também um efeito do beijo ou apenas do sangue bloqueado em suas veias? Estava tão alheia que já não saberia dizer. Além do mais, não tinha noção de quanto tempo estava ali, naquela posição.
Voltava àquele momento, e não se cansava de fazê-lo. Sentia seu coração acelerar. Além de tudo ele pegou-lhe a mão suada com carinho e sorriu. E que sorriso mais lindo ele tinha! Como ela gostava de sorrisos. Talvez gostasse tanto deles por não gostar do seu. Sorriso metálico, áspero e monótono. Evitava fazer uso dele quase sempre, lembrando de levar a mão a boca quando ele queria escapulir. Mas o sorriso dele, era lindo! Os dentes brancos e certinhos, cada qual em seu espaço, respeitando seus limites. Definitivamente não eram como os dela.
Que susto tomou quando ele pegou em sua mão! Ficou sem saber o que fazer com elas. "As unhas estão mal feitas", pensava. "Ele nem deve ter percebido", retrucava. Aliás, ela não sabia como ele, um dia, a percebera. Logo ela, que sempre se escondia de todos, sentando no fundo da sala. Não ia ao quadro negro mentindo ser alérgica a giz. Este era o seu álibi.
Enrolava os cachos, pensativa. Agora lembrava de que, certa vez, ele mencionara, a uma distância suficiente para que ela ouvisse, o quanto ele gostava de cachinhos. Naquele momento sentira-se linda, e desde então, havia passado a tratá-los com mais cuidado, rindo-se por dentro daquelas meninas de cabelos lisos, que sentavam na primeira fileiras, com aquela altivez que nunca tivera, e que agora já não lhe fazia falta.
Decidiu, finalmente, se levantar. Doíam-lhe os pés, com aquela sensação de formiguinhas que se espalhavam e subiam pelas pernas. Nunca se importou muito com elas, mas levou um susto ao descobrir, há alguns anos, que não eram formiguinhas de verdade.
Se colocou de pé e esticou as costas. Olhava o parque a sua volta. Curtia com os olhos cada uma daquelas árvores, e cada um daqueles patos, que havia recebido um nome dado por ela. Costumava alimentá-los sempre que podia.
Cada uma daquelas criaturas havia sido testemunha de todo o ocorrido. De como ele a olhara, de como conversara com ela brincando com os cordões de sua mochila, do jeito que sorrira ao segurar as mãos pequeninas de unhas mal feitas. Se ele não contasse a ninguém, então ninguém nunca poderia saber. As únicas testemunhas já lhe guardavam segredos diversos. Guardaria para si esta tarde secreta, uma aventura só sua e de seus diários, onde ninguém poderia entrar, nem mesmo em pensamentos. Os guardaria para sempre, sem faltar nenhum detalhe.
Olhava o relógio, o sol já estava se pondo. A realidade ia lhe voltando, colorida e lenta. Precisava ir embora, já deveria estar em casa há tempos. Podia ouvir sua mãe preocupada, com aquele ar de reclamação, que só as mães possuem. "Salete", diria ela, "por onde esteve a tarde toda?" Diria à mãe que passara a tarde na biblioteca, como era o mais provável. Aquele momento deveria ser só seu, preservado no relicário do seu coração. Era melhor se apressar. Caminhava para fora do parque.
Sim... ela o havia beijado, e não conseguia parar de pensar nisso.
Leila Claudia Braga

3 comentários:

Pablo Feliciano da Silva disse...

já conhecia, lá lá lá lá lá lá!

Anônimo disse...

Rera-san, esse conto é a minha cara rsrsrs!! Mto bom!!! Qdo vc lançar o livro qro autografo!!^^ Bjs, Emily.
PS: assinei hj!! rsrs

Geovanni disse...

buaaaaaaa!!!!
que maravilha de conto!!!!!!! Adorei...

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