segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

A menina na garrafa




A garrafa era clara
Dava para ver o que havia do lado de fora
A menina, na garrafa que boiava pelo oceano,
Fechava o olhos e sonhava que, de vez em quando,
Era ave, pelicano que comia peixe e saia voando
Ela cola o nariz no vidro e respira embaçando o mundo
Desenha o próprio nome e retorna lá pro fundo
A garrafa era longa, comprida
A menina olha para o gargalo tapado com rolha e fita
O seu desejo é que escutem tudo o que ela tem pra contar
As aventuras, o barulho do mar,
Todos os barcos que ela viu naufragar
Ela grita, agita a garrafa mais que as ondas
Mas a voz não sai, fica ali presa, ninguém pode ouvi-la
A menina sabe que um dia vai desaparecer,
Sumir de repente – puff –
Ela pega o papel e a caneta que guarda no bolso para se distrair
E escreve uma carta destinada a qualquer ser que possa existir
Deixa escrito no papel tudo o que conhecia
As tempestades, as ondas imensas, os piratas que velejam,
Os monstros marinhos que os marinheiros diziam que existia.
Se a Terra era redonda ela não podia saber
Seu mundo era cilíndrico, pequeno e,
Ao mesmo tempo, vasto e móvel
Ela nunca esteve no mesmo lugar por mais de uma maré
E, terminando seu relato, no final daquela carta
Decidiu deixar também um pedido:
- Leia e jogue ao mar
Porque, assim, a menina sempre existirá
Trancada ou não em uma garrafa
Com ou sem a esperança de voar.

Leila Monteiro de Castro

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