segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Dizem por aqui



Numa esquina como essa há uma casa
Onde vive o gato amarelo
Que cantarola todas as noites
Irritando a vizinhança
Enquanto a cadeira de sua dona balança.

Olhando para ele, ela acha graça
Miando assim, em serenata
Como se fosse para ela
Ou para a lua prateada
Que a janela emoldura
Bem ao lado da figura
Dessa velha apaixonada.
Toda a noite ela fecha o portão
Abre a janela e põe o gato no chão
Não dorme nem cochila
Fica ali, velando a escuridão
Até que a primeira luz da manhã cintila
Só então ela levanta, pega o gato com a mão
Some, desaparece, e ninguém sabe o que acontece.
Dizem que ela era miss

Não sei se do universo ou de algum país
Tinha faixa e acenava
Com um sorriso que brilhava.
Quando o primeiro cabelo branco surgiu
Se achou feia, ficou louca, trancou-se dentro da casa
E na rua ninguém mais a viu.
Contam que era espiã
Não se sabe para quem trabalhava
Tinha licença para matar
E um arma carregada
Não dorme a noite porque sonha demais
Com tudo o que deixou para trás.
Dizem que era professora
Da época da palmatória
Dentro da sua sala
Era proibido contar história
Tinha que se dizer a tabuada decorada
Todos os dias, de trás para frente
Há quem diga que ela era muito exigente.
Contam que ela é uma bruxa
Dentro do quarto, cheio de cortinas
Esconde um caldeirão aceso
O gato é quem a ajuda
Busca ingredientes, folheia livros
Ela aguarda bem calada ao lado dele
E quando amanhece vai mexer seus feitiços.
Dizem que é neta de um barão
Muito rico ele foi,
Mas hoje não lhe sobrou um tostão
Por isso não sai de casa
Come pouco e poupa muito
Entra no quarto e veste um disfarce
Para pedir dinheiro pelas ruas da cidade.
Contam que ela é prisioneira de um encanto
O gato deve miar todas as noites
E quando amanhece ela se esconde em seu canto
Pois se um filete de luz lhe toca a face
Surgem verrugas imensas, por toda a parte
“Feche as cortinas e não deixe a luz entrar”,
Disse-lhe uma fada tentando ajudar.
Até hoje não se sabe ao certo o nome
Dessa velha bruxa-mestra-miss-baronesa-espiã
Que estando ou não encantada
Enfeitiça a todos com as risadas
Que dá quando escuta o gato cor de mostarda.
Balança a cadeira que range
E espera o sol raiar
Para correr até o quarto
Escurecê-lo e ficar por lá.
São essas coisas que se contam por aqui
Do que acontece todas as noites
Numa esquina como essa
Na casa do gato que sabe cantar.


Leila Claudia Braga

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